Como Pecar – o exemplo de Pedro

O título pode chamar a atenção mas não tem nada de surpreendente, na verdade. O discípulo de Jesus sabe que peca – mas convém que não peque como quem não conhece a Jesus.

Segundo o Evangelho de João, no primeiro dia da semana após a morte de Jesus, os seus discípulos estavam reunidos à porta fechada, com medo das autoridades religiosas. É dito que faltava Tomé, logo, provavelmente estavam os dez restantes, incluindo Pedro. Como estaria este homem, o Pedro impulsivo, o Pedro afirmativo, o Pedro das certezas, o Pedro corajoso, o Pedro líder, o Pedro que disse três vezes “não sou Seu discípulo”?

Ed René Kivitz conta que certa vez, ao ler a narrativa da noite em que Pedro negou a Jesus três vezes, ficou assustado (quantas vezes O negamos, também?) mas de seguida pensou: “Eu gostaria de pecar dessa maneira”. E, indo mais longe, um dia subiu ao púlpito da sua igreja e anunciou: “Vou ensinar-vos a pecar”.

E perante uma congregação certamente de olhos esbugalhados – mas também de ouvidos bem abertos ! – este Pastor partilhou o que aprendeu com Pedro:

Primeira regra – acreditar que seremos capazes de não pecar
Pedro havia declarado a Jesus que daria a sua própria vida por Ele (João 13:37) e as suas palavras foram sinceras, sem dúvida. Embora viesse a falhar, ele acreditava que iria ser fiel – era isso que o seu coração desejava. Pedro contava com o seu amor ao Mestre, não com a sua fraqueza.
Assim também nós devemos nunca pré assumir, com resignação auto -desculpabilizante, que vamos pecar. “Devemos pressupor a nossa fidelidade a Deus e não o nosso pecado”.
Quando pecamos, os primeiros a ficarem surpreendidos e desiludidos devemos ser nós mesmos.

Segunda regra – não deixar que o pecado seja um hábito
Numa noite perigosa, Pedro mentiu mas não era um mentiroso. A mentira não o definia, não era um sinal do seu carácter. Numa hora difícil, Pedro foi cobarde mas não era um homem cobarde – ele era aquele que escasso tempo antes havia afrontado um dos que se juntaram para prender Jesus e que arriscou estar perto do local para onde O levaram (João 18:10-27). Pedro cometeu um pecado mas esse pecado não fazia parte da sua identidade.
Assim também na nossa vida o pecado deve ser cada vez mais uma anormalidade, não a norma. “O pecado não é a prática usual de quem anda na luz”. Quando pecamos, a reacção de quem vê a nossa falha devia ser sempre “Eu não esperava isso de ti”.

Terceira regra – chorar depois de pecar
Pedro negou a Jesus uma vez, outra vez e ainda uma terceira vez. Logo após, saindo do pátio da casa do sumo sacerdote, chorou amargamente (Lucas 22:62). Lágrimas vindas de um coração amargurado pelo pecado cometido. O nosso pecar entristece a Deus e muitas vezes resulta em dor à nossa volta. Também nós próprios sofreremos as suas consequências mas o acto em si, quando ainda nem gerou (mau) fruto, deve causar-nos desgosto, vergonha e culpa. É este o caminho necessário para alcançarmos a dádiva do perdão. “Somente quem sofre a sua culpa pode experimentar o perdão de Deus”.
Os que choram são bem-aventurados.

Quarta regra – ir das lágrimas ao arrependimento
Judas Iscariotes traiu Jesus, reconheceu o seu pecado, mas teve remorsos e suicidou-se. Pedro traiu Jesus, reconheceu o seu pecado, mas arrependeu-se e estava lá quando Jesus ressuscitado foi ao encontro dos seus discípulos. Voltou ao sítio certo e pôde sentir que o seu Senhor continuava a dispensar-lhe cuidado, confiança e amor.

Que assim aconteça sempre connosco: pecando, corramos para o arrependimento. “Ninguém pode ir tão longe que o amor de Deus não o alcance. Ninguém pode fazer algo impossível de Deus perdoar. O pecado não é irreversível. É sempre possível recomeçar. O apóstolo João diz que não devemos pecar mas, se pecarmos, temos em Jesus nosso aliado para nos ajudar a voltar a Deus”.

Como pecar, então? Ou seja, como lidar com o nosso próprio pecado? Comecemos por pedir insistentemente a Deus que o pecado se torne cada vez mais algo de estranho e anormal na nossa vida. E que a experiência da culpa seja real para que possamos entrar no gozo do perdão e da comunhão restaurada. A vida abundante que cada manhã está à nossa espera graças às misericórdias sempre renovadas do Pai.

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