CREMOS

Declaração de Fé Baptista

(aprovada em Setembro de 1975 na 41ª Assembleia-Geral da Convenção Baptista Portuguesa)

I – AS ESCRITURAS SAGRADAS

A Bíblia Sagrada, nossa única e toda-suficiente regra de fé e prática, foi escrita por homens divinamente inspirados e é o registo da revelação pessoal de Deus. É um tesouro perfeito de instrução Divina. Tem Deus como autor, a salvação do homem como fim e a verdade, sem mescla de erro, como conteúdo. Revela o plano de Deus para a nossa Salvação e os princípios pelos quais Deus nos há-de julgar. É a autoridade absoluta e o padrão supremo pelo qual toda a conduta humana, as opiniões religiosas e os próprios credos devem ser testados. É também, como revelação de Jesus Cristo, o centro da verdadeira unidade cristã.
(II Timóteo 3:16-17; II Pedro 1:21; II Samuel 23:2; Actos 1:16; Provérbios 30:5-6; João 17:17; Romanos 3:4; Apocalipse 22:18-19; I Cor. 4:3-4; Lucas 10:10, 16; 12:47-48).


II – DEUS

Há somente um Deus vivo e verdadeiro; Ser pessoal infinito, inteligente e espiritual: o Criador, Redentor, Sustentador e legislador do universo, digno do mais puro amor, reverência, adoração e obediência. O Eterno Deus revela-se a nós como Pai, Filho e Espírito Santo, com atributos pessoais distintos, mas sem divisão de natureza, ser ou essência.

   1. Deus, o Pai

Deus como Pai, reina com cuidado providencial sobre o Seu universo, as Suas criaturas e o curso da história humana, segundo os propósitos da Sua graça. Ele é todo-poderoso, perfeito em amor e sabedoria. É verdadeiramente Pai para todos os que aceitam Jesus Cristo, seu Filho, como Salvador pessoal.

   2. Deus, o Filho

Jesus Cristo é o eterno Filho de Deus. Na Sua encarnação, Ele foi concebido do Espirito Santo e nascido da virgem Maria. Revelou e consumou de forma perfeita a vontade de Deus, tomando sobre si mesmo as exigências e as necessidades da natureza humana e identificando-se completamente com a humanidade que veio remir, embora sem pecado. Honrou a Lei Divina pela Sua obediência pessoal e na Sua morte sobre a cruz providenciou para o homem a expiração dos seus pecados. Ressuscitou com um corpo glorificado e apareceu aos Seus discípulos de forma visível, audível e palpável. Ascendeu ao Céu e é agora exaltado à mão direita de Deus, como o único Mediador, participante da natureza de Deus e do homem, em cuja pessoa se efectua e reconciliação com o Pai. Virá segunda vez em poder e glória para julgar o mundo e consumar a Sua missão redentora. Jesus Cristo habita agora em todos os crentes na qualidade de Senhor vivo e eternamente presente.

   3. Deus, o Espírito Santo

O Espírito Santo é o Espírito de Deus. Foi Ele quem inspirou os homens santos de outrora a escrever as Escrituras. Habilita hoje o homem a compreender a verdade através da sua iluminação. Exalta Cristo como Senhor. Convence do pecado, da justiça e do juízo. Convida os homens ao Salvador e efectua a regeneração. Cultiva o carácter cristão, conforta os crentes, habita neles e lhes confere dons espirituais através dos quais servem a Deus na Sua Igreja. Ilumina os crentes e os reveste de poder para a adoração e o serviço da evangelização.
(João 4:24; 15:26; Salmo 83:18; Heb.3:4; Romanos 1:20; Jeremias 1:10; Êxodo 1:11; Isaías 6:3; I Pedro 1.15-16; Apocalipse 4:11; Marcos 12:30; Mateus 10:37; 28:19-20)

III – O HOMEM

O homem foi criado por Deus à Sua imagem, como coroa da Sua criação. Era no principio inocente e sem pecado, sendo dotado de liberdade de escolha. No uso da sua liberdade o homem pecou contra Deus e por transgressão voluntária caiu do seu primitivo estado de santidade, trazendo o pecado sobre toda a raça. A sua posteridade herdou consequentemente uma natureza pecaminosa, de sorte que todos se tornaram transgressores, estando debaixo da condenação.
Só a graça de Deus pode restaurar o homem à Sua santa comunhão e habilitá-lo a cumprir o propósito do seu Criador. A dignidade da pessoa humana é revelada no facto de Deus haver criado o homem à Sua própria imagem e no facto deste ser objecto do Seu infinito amor, a ponto de Cristo morrer para o salvar, apesar de pecador perdido e sem esperança.
(Génesis 1:27,31; 2;16; Eclesiastes 7:29; Actos l7:26; Romanos 5:21;15-19; João 3:6; Salmo 51:5; Efésios 2:3; Ezequiel 18:19-20; Gálatas 3:22).

IV – A SALVAÇÃO

A salvação envolve a redenção do homem total. É oferecida espontânea e gratuitamente a todos os que aceitam Jesus Cristo como Senhor e Salvador pessoal, o qual por decreto do Pai tomou voluntariamente a forma humana, fazendo por Sua morte a expiação completa dos nossos pecados. Num sentido mais amplo, a salvação inclui regeneração, santificação e glorificação.
Regeneração, ou novo nascimento, é a operação da graça de Deus pela qual os crentes se tornam novas criaturas em Cristo. É uma mudança de coração produzida pelo Espírito Santo através da convicção do pecado, à qual o pecador responde em arrependimento para com Deus e fé no Senhor Jesus. O arrependimento e a fé são experiências inseparáveis de graça divina, que dão à vida uma nova direcção. A justificação introduz-nos a um estado de paz e favor que nos asseguram todas as bênçãos necessárias, nesta vida e no além. A justiça perfeita de Cristo é-nos imputada gratuitamente por Deus.
Santificação, é um processo espiritual que começa na regeneração e visa a perfeição do crente, através da presença e do poder do Espírito Santo que nele habita.
Glorificação, é a plenitude da salvação e o bendito estado final dos remidos.
(Efésios 2-.5; 1 João 4:10; I Coríntios 3.5-7; João 3:16; Isaías 53:4-5; Hebreus 7:25; Colossenses 2:9; Efésios 3:8; Romanos 5:1-22,9; 3:24-26; Apocalipse 22:17; Actos 17:30; Marcos 1:15-17; João 3:19;5:40; João3:3,6-7; Apocalipse 7:13-14; Ezequiel 36:26; 1 Pedro 1:22; 1 João 5:1,4,18; Efésios 2:8; Romanos 10:9-1 1; Hebreus 4:14; I Tessalonicenses 4:3;5;:23; Efésios 1:4; 11-12; 6:18; Filipenses 2:12-13; 1 Pedro 2:2).

V – O PROPÓSITO DA GRAÇA DIVINA

A eleição é o propósito da graça de Deus segundo o qual Ele regenera, santifica e glorifica o pecador arrependido e crente. É perfeitamente coerente com a livre escolha do homem, sendo a manifestação por excelência da soberana bondade de Deus, infinitamente livre, sábia, santa e imutável. Todos os verdadeiros crentes estão seguros nas mãos de Deus. Aqueles que Deus aceitou em Cristo e santificou pelo seu Espírito jamais cairão do seu estado de graça, sendo conservados até ao fim.
(II Timóteo 1:8-9; II Tessalonicenses 2:13-14; I Coríntios 1:26-31; 4:7; Romanos 3:27; 8:28,30; I Tessalonicenses 1:4; II Pedro 1:1 0-1 1; Filipenses 3:12; Hebreus 6:1 1; Romanos 8:28; Mateus 6:30-33; Filipenses 1:6, 2:12).

VI – A IGREJA

Uma igreja de Cristo é, segundo o Novo Testamento, um corpo local de crentes baptizados, identificados uns com os outros pela confissão da mesma fé e unidos por um mesmo pacto na comunhão do Evangelho. É uma congregação de crentes baptizados regida pelas leis de Cristo, que observa as Suas ordenanças, pratica os Seus ensinos e exerce os dons, direitos e privilégios de que foi investida pela Palavra Divina, com o fim de espalhar o Evangelho até aos confins da Terra. É uma comunidade autónoma de governo democrático sob a soberania de Jesus Cristo. Os seus oficiais são, de acordo com o Novo Testamento, os pastores e os diáconos. Todos os seus membros têm iguais direitos, privilégios e responsabilidades.
A igreja num sentido geral é, segundo o Novo Testamento, o corpo de Cristo, incluindo todos os remidos de todos os tempos.
(Actos 2:41-42; 13:23; 15:22; I Coríntios 14:12; II Coríntios 8:5; Filipenses 1:1; I Timóteo 3:1).

VII – O BAPTISMO E A CEIA DO SENHOR

O baptismo cristão é a imersão do crente em água, no nome do Pai, Filho e do Espirito Santo. É um acto de obediência que simboliza a sua fé no Salvador crucificado, sepultado e ressuscitado. Representa ainda que o convertido morreu para o pecado, tendo-se verificado o sepultamento da sua velha natureza e a sua ressurreição para uma nova vida em Cristo. Este acto simbólico de testemunho deve preceder a entrada do crente na comunhão da igreja, pois, como ordenança do Senhor, o constitui participante de todos os privilégios de membro e lhe dá acesso à ceia do Senhor.
A ceia do Senhor é igualmente um acto de obediência pelo qual os membros da igreja participam do pão e do vinho, comemorando juntos a morte de Jesus Cristo e apontando para a sua segunda vinda. Esta ordenança da igreja local representa também a nossa comunhão espiritual com Ele, a nossa participação na Sua morte e o testemunho vivo da nossa esperança.
(Actos 2:41-42; 8:36-39; Mateus 3:5-6; 28:19; Gálatas 3:27-28; Romanos 6.-4; Colossenses 2:12; Lucas 22:19-20, Marcos 14:20-26; Mateus 26:27-30; I Coríntios 11:27-30; João 6:35).

VIII – O DIA DO SENHOR

O Domingo, Dia do Senhor e o primeiro da semana, é o dia em que o crente comemora a ressurreição de Cristo descansado das suas actividades seculares. Deve ser consagrado ao exercício do culto, do testemunho e de outras formas de serviço espiritual, tanto público como privado.
(Mateus 28:1; Marcos 16:2; Lucas 24:1; João 20:1, 19; Actos 20:7; I Cor 16:2; Apocalipse 1:10).

IX – O REINO DE DEUS

O reino de Deus inclui a sua soberania geral sobre o universo e sobre todos os homens que espontânea e voluntariamente O reconhecem como Rei e Senhor. Todos os crentes devem orar e esforçar-se para que o reino de Deus venha em plenitude e a Sua vontade seja feita sobre a Terra. A consumação plena do Seu reino aguarda a segunda vinda de Jesus Cristo e o fim da era presente.
(Mateus 3:2; 5:3-6; 6:9-10,33; 18:1-3; 28:19; Marcos 1:14-15; 4:27; Apocalipse 5:1 Romanos 14:17).

X – OS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS

Deus, no seu devido tempo e a seu modo, conduzirá todas as coisas neste mundo ao seu adequado termo. Jesus Cristo voltará pessoal e visivelmente em glória, de acordo com a Sua promessa. Os mortos ressuscitarão e Cristo julgará todos os homens com rectidão. Aqueles que persistirem na incredulidade e na impenitência receberão no inferno a sua eterna punição. Os salvos fruirão a bem-aventurança eterna em seu corpo ressuscitado e glorificado, e habitarão eternamente no Céu com o Senhor.
(Mateus 25:31-46; Lucas 18:8; 23:42-43; Actos l: 7-l l; João3:36; 12:25- 26; Salmos 10:4; I Pedro 4:7; I Coríntios 6:9-10; 15:50-58; Hebreus 1:10-12; Mateus 13:37-43; Lucas 14:14; Daniel 12:2; Apocalipse 22:1 1; I Tessalonicenses 4:16- 17; II Tessalonicenses 1:6-12; Romanos 2:2-16; I João 4:17; Apocalipse 20).

XI – EVANGELIZAÇÃO E MISSÕES

É dever e privilégio de todas as igrejas e de cada crente em particular, esforçarem-se por fazer discípulos em todas as nações. O novo nascimento do espírito do homem pelo Espírito de Deus faz nascer nele também o amor pelos outros. O esforço missionário é repetida e expressamente ordenado nos ensinos de Jesus, assentado numa necessidade espiritual da vida regenerada. É, pois, dever de todo o filho de Deus procurar ganhar almas para o Salvador através do testemunho pessoal e do uso de todos os meios consentâneos com o Evangelho de Cristo.
(Mateus 28:19-20; Marcos 16:15; Lucas 9:1-6; 10:1; 24:46-48; João 1 5; 16; 1 7:11-20; Actos 1:8;4:33; 14:21-27; I Tessalonicenses 1:6-9; II Timóteo 2:1-13).

XII – MORDOMIA

Deus é a fonte de todas as bênçãos temporais e espirituais. A Ele devemos tudo o que somos e tudo o que possuímos. Temos, por conseguinte, uma divida espiritual para com o mundo, pois somos feitos depositários do Evangelho e despenseiros da graça de Deus. É nossa obrigação servi-lo com o nosso tempo, os nossos talentos, o nosso amor e os nossos bens materiais, devendo reconhecer que todos estes dons nos foram confiados com o fim de os usarmos para a g1ória de Deus e ao serviço do nosso próximo. Ensinam as Escrituras que o crente deve contribuir para a igreja, alegremente e com regularidade, tomando como base o dízimo dos seus rendimentos e cultivando liberalidade na prática de uma mordomia integral, com o alvo de promover o avanço da causa do Redentor sobre a Terra.
(Génesis 14:20; Hebreus 7:1; Génesis 28:20-22; Malaquias 3:7-10; I Coríntios 16:1-2; II Coríntios 8-9).

XIII – COOPERAÇÃO

Reconhecendo que a cooperação é um principio clara- mente expresso nas Escrituras, o povo de Cristo deve assegurá-la da melhor maneira possível, tendo em vista a concretização dos grandes objectivos do Reino de Deus. As organizações de cooperação, embora não tenham autoridade sobre as igrejas nelas associadas, são formadas para despertar, unir e coordenar as actividades que em conjunto, voluntariamente, se propõem empreender. As igrejas devem cooperar umas com as outras no avanço da obra missionária, educacional e beneficente. Unidade cristã, no sentido do Novo Testamento, é harmonia espiritual e cooperação voluntária para os mesmos fins comuns.
(Filipenses 1:5; 4:3; I Coríntios 3:9; II Coríntios 8:23; 11:28; Colossenses 4:11; 1 Tessalonicenses 3:2, III João 8; I Tessalonicenses 1:7-10; Romanos 1:14-15; 15-25-27).

XIV – O CRENTE E A ORDEM SOCIAL

Todo o crente aceita, por imperativo de consciência cristã, a supremacia de Cristo na sua vida e na sociedade e o estabelecimento da justiça entre os homens só podem ser verdadeira e permanentemente proveitosos, quando fundados na regeneração pela graça salvífica de Deus em Jesus Cristo. O crente deve esforçar-se por promover por todos os meios ao seu alcance os princípios da justiça social, a verdade e o amor fraternal. Deve para isso estar pronto a cooperar com todos os homens de boa vontade em todas as causas justas, cuidando sempre de agir no espírito de amor, sem comprometer a ética cristã, procurando ser inteiramente leal a Cristo e à sua Palavra.
(Levítico 19:18; Miqueias 6:8; Isaías 1:16-18; Mateus 19:19; 22:39; Marcos 12:31; Romanos 12-.13-21; 13:8-12; Gálatas 5:14; Tiago 2:8; Salmo 11:7; 33:5; 45:7; Mateus 5:6, 10; 5:39-48; João 13:25).

XV – PAZ E GUERRA

É dever de todo o cristão promover a paz entre todos os homens dentro dos princípios da justiça. Em harmonia com o espírito e os ensinos de Cristo, o crente deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance para evitar ou pôr fim à guerra, ciente de que a verdadeira solução para os conflitos entre os homens se encontra no Evangelho. A necessidade suprema do mundo é a aceitação dos ensinos de Cristo em todos os sectores da vida dos homens e das nações e a aplicação prática da sua lei de amor.
(Isaías 2:2-4; 9:6-7; Mateus 5:9; Lucas 1:79; 2:14,29; 10:5; Actos 10:36; Romanos 5:1; Colossenses 1:20; Efésios 4:3; Hebreus 12:14; Romanos 12:18; 14:19; I Coríntios 14:33)

XVI – LIBERDADE RELIGIOSA

Deus é o único Senhor da consciência. Sendo o governo civil uma instituição estabelecida para promover os interesses e o bem-estar da sociedade humana, é nosso dever orar pelas autoridades constituídas e prestar-lhes obediência em todas as coisas que não sejam contrárias à vontade revelada de Deus. Deve haver inteira separação entre a igreja e o estado, devendo este assegurar a cada igreja protecção e inteira liberdade para o exercício da sua missão espiritual. Nenhum grupo eclesiástico ou denominação deve ser favorecido pelo estado, nem a igreja deve depender do poder civil para realizar a sua obra. Uma igreja livre num estado livre, é o ideal cristão, e isso implica a garantia do livre acesso a Deus por parte de todos os homens e o direito a terem e difundirem as suas crenças religiosas, sem qualquer interferência por parte do poder civil.
(Romanos 13:1-7; 14:9-12; Mateus 10:28; 22:21; 23:10; Tito 3:1; I Pedro 2:13; I Timóteo 2:1-8; Actos 4:18-20; 5:29; Apocalipse 19:16; Salmo 2; 72:11).